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BEACH CLASS ENTREVISTA: LINIKER E OS CARAMELOWS

Voltar Por Bruna Carvalho

Em conversa com a Beach Class, a vocalista da banda "Liniker e os Caramelows" contou momentos antes de subir ao palco da passagem de som da 6ª edição do Santos Jazz Festival, mais detalhes sobre o início da carreira, o que os fãs podem esperar  do novo clipe, e representatividade LGBT. Confira tudo isso e muito mais na matéria a seguir!

Foto: Leila Penteado/ Facebook Liniker

BC: O grupo foi formado em 2015, como vocês se conheceram e de quem foi a ideia de formar a banda?

LINIKER: A ideia de formar a banda foi minha. Eu sou de Araraquara, e estudei fora um tempo, em Santo André. Nessa minha saída eu me descobri cada vez mais cantora, cada vez mais querendo colocar o meu trabalho em ação (...) Nós já nos conhecíamos em Araraquara, por ser cada um movimentado nas cenas culturais da cidade, e no final de 2014 eu estava lá, fui passar férias, quando encontrei os meninos e falei que estava com essa ideia de ter um projeto independente mas que não queria ser sozinha, porque eu já fazia covers para o Youtube. (...) Nós nos encontramos, chegamos em um lugar onde eu apresentando para a banda o que eu estava pensando em referências, qual era o tipo de som que eu estava disposta a fazer e queria naquele momento, apresentando as letras que eu já escrevia desde os 16 anos. Nós começamos a nos encontrar no estúdio do Márcio, que era o trompetista da banda, e nisso começamos a ensaiar.

BC: O álbum de estreia “Remonta” foi lançado no ano passado. E uma curiosidade sobre ele é que vocês contaram com um financiamento coletivo tão grande que superou as expectativas iniciais. Como foi descobrir que tantas pessoas estavam investindo financeiramente no sonho de vocês?

LINIKER: Isso foi muito maluco! Porque a gente não tem gravadora, a gente tava procurando estúdio e aí quando veio essa ideia de fazer o financiamento colaborativo pelo Catarse, eu já tinha visto vários outros projetos de pessoas que tinham sido contempladas, as parcerias que faziam relações em trocas: “vai, vocês nos ajudam com isso, a gente troca isso”. E quando nós escolhemos lançar pelo Catarse foi muito bonito ver as pessoas dando pra gente não só o dinheiro do financiamento, mas dando um apoio: “A gente acredita que vocês têm esse potencial para ter um disco, e esse disco ser foda”. E é um disco foda, é o primeiro disco, foi lançado com um produtor que foi muito generoso com a gente no sentido de entender que a gente era uma banda iniciante. Eu era uma artista iniciante porque eu já compunha as minhas músicas, mas banda é a minha primeira, e o Márcio Arantes – que foi quem produziu – trouxe pra gente um lugar de conforto pra gente ficar a vontade com a nossa música e com o que a gente tava criando ali, trazendo também as referências dele. E aí foi o que foi, está sendo o que está sendo... Estou muito feliz.

Foto: Facebook/ Liniker

BC: Há quase um ano a banda sofreu uma grande perda quando a backing vocal, Bárbara Rosa, veio a falecer de câncer com apenas 21 anos. Nesse momento qual foi a lição que vocês aprenderam? Seja em relação à efemeridade da vida, ou a alguma inspiração causada pela dor do luto.

LINIKER: Eu acho que a gente ainda está aprendendo, acho que a gente não teve tempo na verdade tempo para o luto. Sabe? A gente não teve tempo porque ela faleceu, ela estava em processo do câncer fazia mais de um ano e de repente foi um baque muito forte para gente. Nós estávamos viajando, tinha sido uma semana que ela não tinha ido pro show porque ela estava fazendo quimioterapia, porque mesmo com as quimios ela escolheu fazer parte do show, porque era o que mantinha ela viva, de certa forma – de certa forma não, de forma inteira. O que fazia ela se sentir cada vez mais forte para combater isso.

E nesse dia nós estávamos viajando, ela não estava. A gente recebeu a notícia de manhã, voltando de viagem, e aí foi um baque muito forte pra gente, e acho que essa coisa de não ter tido tempo para viver o luto direito, pra depois já ter que entrar em uma rotina de trabalho são coisas que eu sinto refletir até hoje em mim. Eu acho que eu criei uma relação com a morte de raciocínio, de entender, muito esquisita... Muito esquisita porque eu nunca tinha perdido ninguém tão perto de mim, e a Bárbara era minha amiga de escola, nós tínhamos feito colegial juntas, tinha outra vivência além de banda.

Nós nos descobrimos muito enquanto parceiras musicais, tanto cantando juntas, tanto fazendo parte da banda, viajando, tendo experiências incríveis que a gente nunca tinha tido antes, ela também já tinha sido vocalista de uma banda de reggae, e naquele momento, backing vocal junto comigo. Super a vontade com a função de backing vocal e super produtiva também, sempre muito parceira. E acho que a lição disso é entender que a gente precisa viver as nossas fragilidades e que a gente não está sozinho, sabe? Porque pra ela foi muito importante ter tido esse apoio de banda, e ter tido esse ímpeto de achar na música o que fazia ela forte.

Foto: Facebook/ Liniker

BC: De que forma vocês reagiram ao serem indicados na categoria revelação do 28º Prêmio da Música Brasileira? Como vocês se sentem com tanto sucesso com apenas pouco mais de 2 anos de carreira?

LINIKER: Premiação é uma coisa muito legal, mas acho que nós também precisamos ficar atentos, porque várias bandas muito massa e vários artistas incríveis sendo indicados, mas eu acho que se a gente ficar sempre nessa ideia do prêmio, as vezes a gente desqualifica um pouco o trabalho de outras pessoas (...) Parece que a gente já ganhou tanta coisa sem premiação, por exemplo, de mérito nosso, de troca, de público, de energia, de lugares que nós estamos ocupando – que nós nunca ocupou; que isso já é uma grande vitória. Seria muito bom ganhar o prêmio, mas também foi interessante estar ali para entender um pouco de como funciona o mercado, como funcionam as formas de indicação e de premiação, as formas de fazer um prêmio.

BC: Quais são os artistas na nova cena musical que mais inspiram vocês? Seja em arranjos, ou até na atitude.

LINIKER: Acho que a cena do interior é uma coisa que me aproxima muito dessa coisa por nós sermos uma banda do interior, por sabermos a importância que foi pra gente ser destacado em âmbito nacional de trabalho. E no interior tem a Tássia Reis que é de Jacareí, e está fazendo um puta trabalho há algum tempo. Tem o “Aeromoças e Tenistas Russas” que é uma banda de São Carlos, do lado de Araraquara - que inclusive nós nos encontramos nessa turnê europeia. Tem "O Terno" que eu gosto muito, tem “Samuca e a Selva”, tem “As Bahias e a Cozinha Mineira”, tem “Linn Da Quebrada”, acho que tem toda essa cena da MPBew, que a gente chama dessa MPB nova que é feita pelas bichas, pelas trans, pelas drags, então por exemplo, o trampo da “Pabllo (Vittar)”, da “Glória Groove”, da “Banda Uó” com a Mel ali no centro como uma mulher trans ocupando todos esses espaços.  

Eu acho que a gente conseguir se ver nesses lugares é muito importante, para além da representatividade, acho que é uma coisa de nós entendermos o mundo que nós estamos vivendo, e o tempo que nós estamos vivendo, que é uma história que acontece agora e que assim como outras repercutiram na gente, essa vai repercutir em outras pessoas que virão depois. Então acho que é marcar mesmo uma geração, é um eixo geracional.

Foto: Facebook/ Liniker

BC: O lançamento do clipe “Sem Nome, Mas Com Endereço” está marcado para o dia 17 de agosto. O que os fãs podem esperar desse trabalho?

LINIKER: Muito coração, gente! Foi feito com muita energia. É uma equipe toda feminina, que pra gente foi especialíssimo demais ter uma equipe de mulheres produzindo, gravando, filmando, fotografando, em um ambiente que nós escolhemos que foi o Lago Paranoá em Brasília. E que apesar de todo mundo ter saído de lá cheio de carrapato, com coceira, foi muito especial com a participação do Marcelo Jeneci que gravou a música com a gente no disco e que também tem sido uma pessoa super especial nesse processo de encontros. Eu só peço que as pessoas se permitam ao que é a ideia do clipe, e ao que ele está passando, porque ele foi feito com muita verdade.

A atriz Taís Araújo e Liniker Barros durante episódio do programa da Rede Globo "Mister Brau"/ Foto: Reprodução/ Instagram

BC: O público de vocês na internet está mais voltado para um nicho de pessoas que aceitam e respeitam pessoas da comunidade LGBT, como vocês se sentem com a oportunidade de participar de programas de grande audiência na TV aberta onde boa parte dos espectadores é de pessoas mais conservadoras?

LINIKER: Tem isso de ser bem voltado mesmo para a questão LGBT, mas acho que até quem é conservador está se rendendo a nós. Até quem tem questões preconceituosas, racistas, transfóbico, homofóbico, machista, quando vê a potência que tem musicalmente e de ideia do que está acontecendo ali, entende e fica junto.  

Então eu acho que é música, eu estou fazendo música. Tem discurso, mas eu estou fazendo o discurso em forma de música.